FITZ ROY – Dois Anões. Um Gigante

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Fitz Roy VagaMundos

Somos dois espíritos inquietos. Irrequietos. Desinquietos.

Somos uma parelha de contrastes que se provocam, opostos que se atraem, diferenças que se comple(men)tam. Porém, somos unha com carne, farinha do mesmo saco, cúmplices no crime. E o nosso grande crime é termos o bichinho das viagens a correr-nos nas veias. Como consequência, fomos presentes como réus no tribunal dos andarilhos, acusados da mais ignóbil vilania: andarmos por aqui, neste mundo virtual dos blogs, a instigar os outros ao mesmo delito. Shame! Shame! Shame!

Viajar é o nosso intenso catalisador. Dínamo de errâncias. Alento de alma. Gerador de emoções. Matriz de sonhos.

Afinal de contas, o que seria o ser humano sem sonhos? Sejam dormentes ou acordados, fortes ou brandos, irrefutáveis ou assolapados, sejam viscerais ou superficiais. Os sonhos estão profundamente enraizados na génese desta substância a que chamamos ser humano. Porque é dos sonhos que nasce a obra.

Fitz Roy

Foi um desses sonhos – um bem velhinho – que nos levou, mais uma vez, a rumar a um destino arredado e arrebatador, a Patagónia. Remota na distância, remota na idade pois é tão velha como o planeta azul. E no entanto, terra virgem e selvagem que permanece misteriosa e inexplorada para o homem, descobridor e explorador desde que pisou esta gigante bola. A Patagónia é um lugar que até se consegue conceber, mas é difícil de crer de tão sobrenatural.

Nestes nossos devaneios oníricos, gracejávamos com subir ao gigante Fitz Roy. Já nos conseguíamos imaginar intrépidos caminheiros, calcorreando quilómetros de estepe patagónica, palmilhando montes e vales por entre vegetação incógnita e sermos brindados com visões de tirar o fôlego a cada curva. O gracejo passou a coisa séria quando pisámos El Chaltén, dita capital do trekking.

El Chalten

Montes imponentes vestidos de verde natureza, picos maciços vestidos de branco, glaciares vivos e em permanente mutação, rios de águas cristalinas e curvas sinuosas… Esta é a paisagem que não dá folga aos olhos de quem cai nesta minúscula aldeia. A natureza vestiu-se das mais belas rendas, adornou-se com a mais atraente maquilhagem e usa da mais explícita provocação para seduzir os incautos amantes das caminhadas. Irresistível. Inevitável. Fatal.

E o omnipresente maciço de granito, o Fitz Roy, evoca a cada segundo. Desafiador, lança um convite descarado a quem o queira conhecer de perto. Provoca a audácia, a coragem, a ousadia.

Somos fracos, confessamos. Deixámo-nos enredar pelo tal convite e no dia seguinte, de madrugada, estávamos a caminho de nos embrenharmos a fundo no desconhecido, malfadado instigador dos curiosos. Se a imaginação nos havia alimentado a vontade até então, a realidade superou qualquer idealização do que nos esperava.

trekking patagonia

A paisagem atinge-nos impiedosamente com autêntico espanto, de mansinho vai-nos puxando cada vez mais para o seu encantamento. Não há como lhe fugir. E com tudo isto, já calcorreámos quilómetros quase sem nos darmos conta. Até que nos dá um murro no estômago. O Fitz Roy desaparece. Esconde-se por trás dum cerro que se agiganta perante o nosso olhar a cada passo que se dá. E a cada passo imploramos que o gigante encolha. Como se vozes de anão chegassem aos ouvidos do gigante.

Ao atravessarmos o Río Blanco deparamo-nos com a subida mais árdua das nossas experiências de caminhada, que já não são poucas. Ao pé disto, a travessia dos Pirenéus do Caminho de Santiago pareceu uma brincadeira de crianças. A inclinação de 45o é assustadora. O estreito – muito estreito – trilho, como uma cicatriz em ziguezague na encosta, está pejado de pedras, pedregulhos e blocos de granito soltos. Será um quilómetro disto. O receio dum deslize, dum resvalamento, dum desequilíbrio é real. E uma queda aqui, nunca terá um final feliz.

Rio blanco

Estafados, extenuados e esgotados, chegamos ao topo da Laguna de Los Tres. Subimos a escada até ao céu. E Fitz Roy revela-se em todo o seu esplendor.

As dores, físicas e emocionais, desaparecem num ápice. O portentoso maciço é o centro da nossa atenção e o nosso olhar contempla-o demoradamente. Enlevo. Fascínio. Magia. O turbilhão de emoções que enegreceram a árdua subida sucumbem perante a visão solene e divinal que nos enche os olhos… E a alma. Serenidade, bonança, paz. Invade-nos uma sensação pura de gratidão, de reverência, de humildade. Os dois anões perante o ancião gigante. Em redor espraia-se a mais bela das vistas, o mundo a nossos pés. Triunfal e apoteótico.

Laguna de los tres

Dizem “the best view comes after the hardest climb”. A imagem perfeita que encerra o significado pleno desta citação é, para nós, o Fitz Roy. Canalizamos isto para a nossa vida, tanto no seu sentido literal como figurativo. Trepar montanhas é algo que vale cada gota de sangue, suor e lágrimas. Todo o esforço empreendido será compensado no momento em que virmos a grandeza do que conquistámos com o trabalho das nossas mãos. Porque o troféu não está em superar a montanha, mas em superarmo-nos a nós mesmos.

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Anabela e Alexandre (linguista e economista), apaixonados um pelo outro e pelas viagens. Juntaram as letras e os números e criaram Vagamundos - Blog de Viagens onde partilham as suas errâncias pelo mundo e motivam todos a viajar. Autores independentes dos livros Caminho do Amor e Rostos do Oriente. Aproveitam qualquer desculpa para vaguear pelo mundo. Viveram na Alemanha, Dinamarca e EUA. Praticam trekking e lounging, alternadamente. Gostam de sujar cozinhas e conversar até altas horas. Uma vez por ano fingem que tocam djambé.

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