De Roncesvalles a Zubiri (21km)

47km percorridos
766km para Santiago
“Life is a roller coaster!”
 
À saída de Roncesvalles, um
sinal rodoviário teima em nos relembrar que ainda falta muito para Santiago,
790km. O que ele omite é que a distância pode não ser o maior adversário do
peregrino.
Saímos por um trilho rodeado
de bosque que nos acompanha quase até Burguete. O Inverno foi rigoroso nos Pirinéus. A Primavera mostrava agora os primeiros ares da sua graça, mas ainda a medo. Reaviva-se em nós a calma e tranquilidade de quem caminha pela natureza. Ficamos gratos por sermos presenteados com vistas e paisagens sem mácula de pecado da cinzenta modernidade.
Igreja de San Nicolás de Bari, Burguete
Ainda não o sabíamos mas o
caminho preparava-se para nos causar os primeiros danos físicos e psicológicos
numa contínua “montanha-russa” de subidas e descidas.
Zubiri-18km… Santiago-787km!!!
Até Espinal, a nossa
primeira pausa do dia, os troços do Vale do Erro foram fáceis, sempre animados
pelo cenário de bosques pontilhado pelos extensos prados.
 
Logo à saída de Espinal, apanhámos a primeira subida do dia que nos deixou sem fôlego.
Mas ao chegarmos ao Alto do Mezkiritz, o ponto mais alto desta etapa, tivemos que admitir que valeu a pena subir cada metro, pois fomos regalados com uma vista
estupenda de prados por entre densos carvalhais e faiais.
Alto de Mezkiritz
Foi a partir daqui que tudo se complicou.
Nossa Senhora de Roncesvalles

A sucessão constante de subidas e descidas começou a
manifestar-se no corpo, os músculos das pernas reclamavam com as subidas, os
joelhos protestavam nas descidas.

Hoje olhamos para as
fotografias e vemos o quanto são enganadoras. Porque nos lembramos bem do nosso
queixo a cair cada vez que olhávamos em frente e nem acreditávamos nos declives
que tínhamos que transpor.

A mente começa a trair-nos. O corpo passa mensagens
de dor e cansaço e a mente transforma-as em dúvida: questionamos seriamente a
nossa capacidade de chegar a Santiago, e a dúvida enfraquece a coragem. Era
apenas o nosso terceiro dia.

 

Para ajudar à festa, um céu
carregado de nuvens cinzentas instaurava em nós o medo duma chuvada eminente.
Só para nos manter em sentido, soltava umas gotas não fôssemos nós julgar que
estávamos livres do constante “tira-casaco-veste-casaco”, um interessante
exercício que se pratica muito no Caminho.

Descida após subida, lá
fomos avançando até Lintzoain onde, num modesto parque infantil, nos
refastelámos com o nosso almoço: sandes de queijo e presunto acompanhadas duma
bela cola de reserva, produção deste ano! Para companhia, um juvenil rafeiro
trocava connosco olhares suplicantes. Em tom de agradecimento pela fatia de pão
partilhada, acompanhou-nos um pedaço do caminho até achar que estávamos bem
orientados.

“Em memória de Shingo Yamashita. Peregrino japonês falecido em Agosto de 2002 aos 64 anos. Teus amigos do Caminho: Nekane e Jose Mari”

 

O momento mais comovente do
dia aconteceu ao cruzarmo-nos com o memorial de Shingo Yamashita, um peregrino
japonês que ali faleceu em 2002. Os memoriais geram um turbilhão de pensamentos,
de medos, de incertezas. É impossível não nos questionarmos sobre o que se
passou e o porquê. Ao longo de tantos séculos, foram milhares os peregrinos que
por ali passaram, com os seus medos, sonhos, angústias, esperanças e fé.

O
Caminho está repleto dessa energia deixada por todos eles. E o mais intrigante
é que ela parece circular por nós que ali estamos hoje. Às vezes parece
impulsionar-nos para irmos mais além, outras vezes parece esmorecer o espírito
e fazer-nos crer que é impossível.

“- Cansado?, – Exausto!”

A pensarmos nisto, chegámos
ao Alto do Erro. Um bar móvel surge no horizonte e imediatamente decidimos
fazer ali a última pausa do dia. Partilhamos a mesa com o François, luxemburguês com quem
encetamos logo uma amena cavaqueira. O visível estado de sofrimento chamou-nos
a atenção. Queixou-se das bolhas e das dores nos pés e joelhos, muito por culpa
do excesso de peso da sua mochila. A pausa estendeu-se mas todos retomámos o
caminho com mais ânimo…

Alto do Erro
Sol de pouca dura, como na
realidade o fora o dia inteiro. Para fechar o pano, uma descida de 300m em
apenas 3kms.

Lama, pedras rolantes e desníveis com degraus de rocha para
embelezar o cenário.

A dúvida de algum dia conseguirmos realizar esta
peregrinação estabeleceu-se forte nas nossas mentes. As palavras trocadas
resumiram-se a queixumes e repreensões.

 

Não víamos o fim daquele tormento, e a
cada passo dado na descida vertiginosa, mais desânimo se instalava.

 

Até que
entramos em Zubiri pela Puente de La Rabia. Impossível não reparar na ironia do
nome, apesar de na sua origem nada ter a ver com a raiva que um declive
daqueles pode gerar num peregrino.

 

Como se ainda não bastasse,
descobrimos que não tínhamos cama! Os albergues estavam completos, até os
albergues particulares. Psicologicamente desfeitos, já nos preparávamos para
andar ali perdidos à procura dum quartito na casa de alguém quando nos surge ao
caminho uma jovem oferecendo água a um sequioso: “quieres una habitación?”
Aceitámos de imediato. Pelo caminho disse-nos que o quarto ficava na pensão
Goikoa, uma palavra basca que significa o mais alto! Percebemos a intenção do
esclarecimento quando tivemos que subir os cinco lanços de escadas até ao
último andar do prédio.

A simpatia da jovem foi o
primeiro bálsamo no fim dum dia de provações. Somando um duche relaxante e um
jantar recuperador, reavivou-se o sonho de chegarmos a Santiago.

 

Mas o foi o serão passado a dois, levantando a moral um do outro, que realmente trouxe renovada coragem a esta dupla. Somos uma equipa na Vida. E no Caminho não saberíamos funcionar doutra maneira.

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